O JOGO LEVADO A SÉRIO
14.07.2010

COLÉGIO DON QUIXOTE

O JOGO LEVADO A SÉRIO
A atividade lúdica na escola não é uma pura brincadeira. Conduz à compreensão do coletivo, do social. A criança aprende e joga com regras que precisam ser conhecidas e discriminadas; no início obedecidas e talvez mais tarde discutidas e modificadas.
É um aprendizado moral, político, social. Para jogar bem é preciso que a criança tenha atenção, disciplina, controle; é necessário que ela pense rápido e atue, se arrisque e se resguarde nas horas certas.
O jogo é a primeira possibilidade do processo de desenvolvimento cognitivo.
Inicialmente temos o Jogo de Exercício, um novo movimento com o corpo, um novo som, uma nova palavra que a criança repete até o domínio necessário que propicie novas formas de ação;
Em seguida, o Jogo Simbólico, quando já se pode usar a capacidade de representação, falar e interpretar as coisas em sua ausência: dramatizações da vida familiar, escolar, urbana, rural.
O desenho é outra forma de manifestação livre, assim como os trabalhos manuais não orientados, pintura livre, modelagem etc.
Além das atividades inteiramente espontâneas a atividade simbólica pode aparecer no correr, pular, dançar, marcar ritmos,, cantar, imitar sons, qualquer situação que tenha uma significação dentro do seu simbolismo próprio.
Mais adiante, o Jogo das Regras que, como o jogo da vida, não elimina a subjetividade mas está inserido num sistema de regras que tanto podem ser aceitas como recriadas, sempre dentro da participação coletiva. Aqui a troca de papeis é importante, diferentes comportamentos são compreendidos, diferentes posições dos membros que ocupam a rede de relações.
O jogo das regras expressa o encontro do subjetivo com o real, do individual com o social.
O jogo supõe um sujeito sempre ativo, atento, inteligente; um sujeito que julga, critica, discute, pensa, decide. Um sujeito que se assume nas diferentes situações com que se depara. E tudo isso “brincando”, aprendendo desde cedo a ser um indivíduo independente que vê o outro e respeita seu grupo.
Assim ensinamos aqui no Don Quixote.
Vamos acompanhar cada grupo, conhecer um pouco do trabalho de cada série neste bimestre:

Salas Amarela e Laranja
Novas palavras, novos sons, a alegria de se mexer, dançar, cantar, buscando a nossa cultura de raiz: cantigas de roda bem brasileiras, cirandas, brincadeiras antigas de rua, de família, cantigas de recreios colegiais.
O vocabulário desconhecido não afasta, a interpretação do texto vem com o corpo, as novas palavras só pedem repetição, aprendendo a pronúncia da nossa língua, o ritmo das frases, a entonação.
A roda é do pequeno grupo, uma corrente em que todos se dão as mãos, em que delimitam um espaço próprio, seu terreno.
É sua primeira roda, espaço conquistado, onde eles conhecem as músicas e ritmos infantis, importante como a roda de capoeira, a roda de samba, a roda fechada nos terreiros pelas filhas de santo, nas religiões africanas, a alta roda social, a que só privilegiados têm acesso.

Sala Vermelha
A Sala Vermelha descobre cores, cria novos tons, se lambuza com a massa colorida da pintura a dedo.
A superfície em que se cria é bem maior do que uma folha de papel. As possibilidades de criação são muitas, variando cores e formas em movimentos não definitivos e bastante variados. Experimenta-se uma cor, outra; inventa-se uma nova cor, outra. Experimentam-se diferentes posições das mãos para criar novas formas. Fixam-se estas em folhas de papel. Reunifica-se a massa para novas tentativas: e a experiência se reinicia, indagativa e sempre bem sucedida.
Cada um com seu poder de decisão sobre sua criação, todos desenvolvendo seu gosto estético, as mãozinhas descobrindo novas posições para utilizá-las e obter diferentes traços no branco da mesa por baixo da massa. Cada um olha criticamente sua composição, observa, decide se está bom ou se quer diferente. E é simples mudar. Simples e novo.

Sala Azul
A entrada no Jogo de Regras, os códigos.
O jogo amplo, exercitado com o próprio corpo, conduzido pelo raciocínio lógico, pelas primeiras leituras, leituras de símbolos que traduzem um único sentido. Neste primeiro momento, os sinais de trânsito. Decifração e obediência a estes códigos.
Na mesa, em tamanho menor, códigos combinados pelo grupo. O Jogo dos Símbolos, aqui, arbitrado por eles, indica caminhos a percorrer, decisões a tomar. Prepara para a chegada das letras, das palavras, signos arbitrados pela cultura de um grupo muito mais amplo. Ensina a ver que pequenas formas – traços e pontos, têm significados diferentes, conforme sua colocação, sua sequência. E que estes traços e pontos comunicam. Comunicam se os soubermos ler. Têm sentido, falam.
A Sala Azul entra na vida da representação, sem abandonar no entanto as coisas concretas, brincadeiras sem regras, devaneios criativos. Mas agora tudo é legível. Intensificam-se as indagações: “O que está escrito aqui? O que quer dizer isso? Como se escreve?...”

Sala Verde
As letras entraram nas sílabas, as sílabas nas palavras, as palavras nas frases, as frases nas páginas da história de Cacá e Cocada.
Cada um fez suas frases, mas elas tinham de ser combinadas com o grupo. E Cacá e Cocada andaram juntos o dia todo, e depois do banho acabaram cansados eles também, dormindo em suas caminhas.Os alunos criaram personagens, espaço e tempo, todos os elementos fundamentais de uma narrativa. E as crianças aprenderam o que era um livro na experiência de construir um. Texto verbal e ilustração, prefácio e capa e quarta capa. Aprenderam sobre a orelha e a lombada do livro, sobre autor e editor. E gostaram.
Estão também criando novidades, na sua infinita inventação das brincadeiras de casinha, em que repetem e interpretam cenas familiares, misturando experiências em suas conversas. A casinha é um pique em que cada um pode falar sozinho ou falar com o outro, espaço em que mandam, arrumam e desarrumam conforme o humor ou que esteja sendo ouvido – em casa, no colégio, na televisão nas conversas de que depreendem pedaços.

2º Ano
Buscando a correção ortográfica os alunos jogam forca. E quem erra o palpite fica mesmo enforcado. Mas logo se apaga o quadro e o enforcado volta à vida, no jogo do faz-de-conta.
Todos juntos, depois de ler e de gostar da história do Tio Onofre e, como crianças urbanas deste século, cheios de informações de crimes e assaltos, quiseram eles mesmos escrever a sua história policial. Criando, dando idéias, cedendo aqui e teimando ali, construíram seu enredo coletivo.
Montaram também o Quadro Mágico, resultado de muito cálculo mental, briga e desbriga, levando daqui pra lá e de lá pra cá os números, acaba dando certo. Quem resolve? A professora? Não, o grupo. A professora orienta, coordena, não subordina nunca. Fazendo pensar e ensinando a ter paciência um com outro e consigo mesmo, mostrando os caminhos para que tudo se resolva com amizade , solidariedade e alegria. Até se achar o número certo!

3º Ano
Da panela, herança do menino maluquinho, saem muitos objetos. E com estes objetos constroem histórias os participantes de uma orquestra que a professora rege, controlando coerência e coesão, mas sem usar estes nomes gramaticais, apenas incentivando e dirigindo a lógica da criação coletiva.
Num jogo de cartas brincamos de aprender ditongos, tritongos e hiatos. Quem diria! Que assunto tão gramatical se prestasse a brincadeiras! Só no tempo de Monteiro Lobato...
Para o cálculo mental, compreensão das quantidades, introjeção do valor do número, jogamos o dadão. E as contas viram alegria, soma-se e se diminui, tudo decidido pela sorte porque é o dado que resolve.

4º ano
Enigmas de Astronomia. A professora vai dando as dicas mas não responde. A resposta é dos alunos, conhecedores do céu. Pensar, decidir, consultar a memória e a lógica para responder, são exercícios comuns no 4º ano.
Voltar também a histórias da primeira infância povoadas de fadas, bruxas, sapos e príncipes, alegra os alunos. Mas agora a compreensão é outra, e vira-se a história pelo avesso, e desfazem-se e refazem-se os encantamentos, trocam-se os papeis dos personagens, reinterpreta-se toda uma história. Muito adulto não reviu seus contos infantis, mas estes alunos... E vão dramatizar as histórias que leram e reinventaram!
Fração não é bicho de sete cabeças, nem personagem mau saído de histórias infantis. Fração é simples, se a gente consegue visualizar cada numeral fracionário que se lê. Assim, a cada fração corresponde uma ilustração que a representa. O caminho é este: compreender no concreto, representar o concreto ao mesmo tempo que se introjeta o numeral correspondente, e mais adiante, suprimir a representação, porque o valor do numeral já foi absorvido. Estamos no caminho.

5º Ano
Por dentro do adolescente que se insinua, um coração bate em direção ao amor, à saudade, revendo e interpretando com sensibilidade o cotidiano. Em pequenos poemas os alunos registraram estes novos sentimentos, esta nova maneira de ver o mundo. Falta muito para saber fazer poemas. Falta ritmo e leitura, falta compreensão de vida. Mas o primeiro e principal passo foi dado: um novo olhar em direção ao seu entorno, um novo modo de pensar a vida.
É na adolescência que se amadurece e nossos meninos e meninas estão crescendo muito, por dentro.
Em Matemática, um jogo nos moldes do antigo Cara-a-Cara ensina brincando múltiplos e divisores. Aqui se perde e se ganha sem traumas. Aqui se aprende o desafio de querer fazer cálculos mentais complexos, rapidamente.
Os ecossistemas chegam num jogo de memória, insistentes. E é na memória que precisam ficar os ecossistemas, compreendidos, respeitados, vividos.
Amélia Lacombe



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